![]() Maria de Medeiros: "Em Paris consigo viver no anonimato" 13-03-2010 Actriz, realizadora e também cantora, Maria de Madeiros lança, aos 44 anos, o seu segundo disco, ‘Penínsulas e Continentes’. O pretexto para falar de música, da admiração pelo pai, das memórias de infância, das filhas e da vida na capital francesa, onde mora há cerca de 20 anos. - Aos 44 anos acaba de lançar um novo disco, o segundo em apenas três anos. O canto era uma paixão que andava adormecida? - Sim, julgo que se pode dizer isso (risos). Eu própria estou surpreendida com o espaço que a música está a tomar na minha vida. E o mais engraçado é que as coisas surgiram como diz a canção do Lenine: ‘Tudo por Acaso’ (risos). - Neste disco reinterpreta temas de Nino Rota, Zeca Afonso, Victor Jara e Lenine. Como é que é funcionou emocionalmente para si esta coisa de se apropriar de canções que não são suas e conferir-lhes o seu cunho pessoal? - Isso, no fundo, é a base do meu trabalho como actriz. Acima de tudo, sinto-me uma intérprete. Gosto de me pôr ao serviço de um texto e tentar descobrir as ressonâncias e os aspectos menos evidentes à primeira vista e recriá-los. E foi isso que aconteceu. Fico muito feliz quando ouço as pessoas dizerem-me que não reconheceram os temas logo à primeira. - O Zeca Afonso é o mais representado neste disco, com três temas. Porquê? - Ele é a minha grande referência na música portuguesa. Dois dos temas que canto neste disco já os tinha usado em ‘Capitães de Abril’ e já me acompanham há muito tempo. Um deles, ‘Coro da Primavera’, até cheguei a pedir ao meu pai para fazer uma versão sinfónica. Há poucos artistas justamente reconhecidos em Portugal, e o Zeca Afonso é um deles, mas penso que ainda resta muito para fazer na divulgação da sua obra. Para mim era importante que o repertório português fosse incluído neste disco juntamente com temas standard universais, como os de Nino Rota. É engraçado que nenhum dos músicos que tocam comigo é português e todos eles se apaixonaram por este repertório português. - Recorda-se da primeira vez que ouviu Zeca Afonso? - Já foi tarde, porque só voltei para Portugal depois da revolução. O que quer dizer que já teria uns dez anos. - Lá, em Viena, onde passou a sua infância, teve a percepção do que estava a acontecer em Portugal? - Sentia que qualquer coisa havia mudado profundamente, porque via os meus pais muito felizes. Percebi imediatamente que tinha acontecido algo que ia afectar os nossos destinos. Foi quando regressámos a Portugal. - O que recorda dessa chegada cá? - Foi um susto (risos). Vinha de uma sociedade muito arrumadinha, onde até havia muito pouco contacto físico entre as pessoas. Assim que cheguei cá tive de começar a dar beijinhos a toda a gente (risos). Durante um tempo queria voltar para Viena. Só quando comecei a fazer os primeiros amigos é que mudei de ideias. E depois veio a música. A música é a melhor forma de uma pessoa se integrar num país. - Tendo uma relação muito próxima com todos os temas deste disco, emocionou-se muito ao gravá-lo? - Emocionei-me em algumas canções. Mas isso não é muito bom (risos). - Por que motivo? - Porque não nos compete a nós emocionarmo-nos. Isso é uma tarefa para o ouvinte. - Qual foi a canção com que mais se emocionou? - Um dos temas mais fortes neste disco e que me emocionou muito foi ‘Velha Chica’, do qual já foram feitas versões maravilhosas como do Waldemar ou da Dulce Pontes. O que eu fiz foi tentar encontrar outra perspectiva que ainda não tivesse sido abordada e, por isso, resolvi pôr as minhas filhas a cantar comigo. São elas que fazem o coro. - Não sendo uma cantora de formação, tem-se sentido confortável nesse papel? - Sim, mas tenho a noção de que estou em plena aprendizagem, o que é uma coisa muito estimulante quando já se tem uma certa idade, como é o meu caso (risos). Sentir-me uma novata com 44 anos é engraçado, sobretudo quando na minha vida tudo começou muito cedo. Comecei como actriz aos 15 anos e a realizar filmes aos 19, por exemplo. Por isso, esta descoberta da música tem sido, para mim, uma coisa muito divertida. - E considera que já conseguiu um estilo próprio? - Não sei. Mas estou a adquirir uma experiência enorme com os músicos com quem tenho trabalhado. - E um deles foi músico da Elis Regina! - Pois, o que aumenta ainda mais a minha responsabilidade. - O que é que o seu pai pensa desta sua carreira musical? - Ainda não sei da reacção dele a este disco mas para o primeiro, por exemplo, julgo que foi muito clemente. Foi muito simpático (risos). - Mas costuma pedir-lhe conselhos? - Sim. Ter um grande compositor em casa é uma grande sorte e dá muito jeito. Tenho trabalhado bastante com o meu pai e ainda há muitos projectos que quero fazer com ele. - O cinema está neste momento em segundo plano na sua vida? - Não. Durante o Verão passado, por exemplo, estive a gravar um filme belga chamado ‘Hitler em Hollywood’. E agora, quando terminar esta primeira vaga de concertos que aí vem, vou voltar a filmar em Portugal, que é uma coisa que já não faço há muito tempo. - Que filme é esse? - É um filme do Sérgio Trefaut que vem no seguimento do documentário ‘Os Lisboetas’, que ele mesmo tinha feito, sobre a imigração. - Falou das suas filhas. Elas já vão manifestando algum jeito para as artes? - Sim, elas são as duas muito artísticas. São as duas muito pantomineiras, como a mãe. A Júlia, a mais velha, até já fez uma peça de teatro muito séria (risos). Depois, penso que são as duas muito musicais. Mas com as crianças nunca se sabe, elas depois decidirão o que querem seguir. - A Maria acha que, de alguma forma, lhes tem incutido esse gosto pelas artes? - Não, deixo-as receber as influências que elas quiserem. O que há é todo um ambiente que as envolve e que pode potenciar esse gosto. - Como aconteceu consigo? - Sim. Não serve de nada dizer às crianças que leiam. A verdade é que se elas nos virem a ler com gosto, por exemplo, também vão querer fazê-lo. - Que memórias guarda da sua infância na Áustria? - Lembro-me de um piano de cauda e de uma mesa de matrecos (risos). Em nossa casa ouvia-se muito música e jogava-se muito matrecos. Fazia-se campeonatos e tudo. - Como é que uma actriz, cantora e realizadora que passa o tempo a viajar de um lado para o outro arranja tempo para estar com a família? - Não é fácil, mas costumo dar o exemplo das famílias ciganas, que são muito nómadas e cujas crianças já estão habituadas às viagens. Portanto, sempre que posso viajo com as minhas filhas. - E elas gostam de Portugal? - Sim, elas adoram Portugal. É sempre bom vir a um país onde se pode falar com toda a gente (risos). - Já disse publicamente que é uma mulher urbana, da cidade. Porquê Paris? - Porque era chamada a Cidade Luz (risos). Durante muitos anos, Paris oferecia possibilidades extraordinárias aos artistas. Havia muito incentivo a todas as actividades artísticas e ainda hoje Paris continua a ter uma oferta que dá vertigens (risos). Lá, por exemplo, pode ver-se cinema de todo o Mundo. Há salas de cinema que só passam filmes antigos, outras que só passam filmes a preto e branco. Há muito teatro, concertos, etc. E depois, como estudei sempre no Liceu Francês, era natural que adoptasse Paris como cidade-base. - A Maria é muito reconhecida na rua lá? - Não. E essa é uma das coisas de que sempre gostei. Em Paris consigo viver no anonimato. Lá ninguém olha para ninguém. Para o português, isto pode parecer uma coisa muito fria, mas também tem o seu lado bom. Às vezes reconhecem-me mas, de uma maneira geral, vivo tranquila. - Cá não consegue essa tranquilidade? - Não. Mas, por outro lado, é muito comovente a abordagem das pessoas na rua. É claro que às vezes apetecia-me passar despercebida – mas não tenho razão de queixa. As pessoas em Portugal são sempre muito carinhosas comigo. - É uma mulher feliz e realizada? - Sou uma mulher que tem tido muita sorte. O meu disco começa com um tema chamado ‘Dolce Vita’, que é uma celebração da vida. É fantástico estarmos vivos. Claro que há coisas imperfeitas – mas há que aproveitar a felicidade de estar vivo. INTIMIDADES - Antes de se iniciar como actriz estudou Filosofia. Qual era a sua ideia? - Era mesmo seguir por aí. Essa paixão ainda existe. Tenho muita pena de não ter seguido os estudos mas na altura era impossível conjugar com o teatro, que me queimava muitas horas por dia no Conservatório. - A Maria é a actriz portuguesa mais cotada internacionalmente. Porque é que nunca tentou uma carreira em Hollywood? - Nunca tive o sonho americano. Curiosamente, sempre que trabalhei com Hollywood foi em projectos que nasceram na Europa e sempre filmes de autor. Para mim, o cinema não é uma indústria. Não consigo ter uma relação com o cinema de puro entretenimento. - E Hollywood é, na sua opinião, o espelho disso? - Hollywood tem de tudo. Tem os melhores actores do Mundo mas também tem as coisas mais horríveis (risos). - A Maria está com 44 anos. Sabendo-se que uma actriz vive da sua imagem, preocupa-se muito com a idade? - Eu não olho muito para o tempo a passar, até porque tenho esta atitude na vida de pensar que estou sempre a aprender e a adquirir conhecimentos. - Mas e a imagem? - Tenho apenas os cuidados básicos. Sei que é importante dormir muito, beber muita água e ser feliz. Isso é o mais importante. Tudo o que seja recurso ao bisturi tem provocado desastres terríveis. - O Mickey Rourke é a prova viva de um desses desastres recentes!... - Sim, ele e o Michael Jackson. Eu, pessoalmente, não sou muito partidária dessas coisas. Miguel Azevedo | ||














