![]() Histórias de Bastidores: Aguenta, coração 07-03-2010 Consegui arranjar maneira de chegar até aos camarins dos Babyshambles depois de um memorável concerto em que um dos guitarristas tinha ficado em Londres porque tinha perdido o passaporte. Pete Doherty estava embrulhado num cobertor castanho, na cabeça um chapéu de abas largas, a suar copiosamente. O que tens, Peter? "Passei o dia sem tomar drogas e estou a ressacar." Foi a primeira vez que vi alguém naquele estado, apesar das altas temperaturas a tremer de frio, coitado. Tinha vindo de comboio de Inglaterra até ao Porto "para consumir o resto da heroína e da cocaína que tinha, porque quando voltar vou ter que fazer testes e se acusar vou preso". E charros, podes fumar? Alguém enrolou um pedaço de ‘erva’ numa mortalha amarrotada, ele deu dois tragos e, displicente, jogou metade para o chão. Apanha isso, meu, estás maluco ou quê? O baterista, pinta de betinho, subserviente, abaixou-se e fumou tudo até à última ponta. Pete desdenhou: "Isto não faz efeito nenhum." Observei-lhe uma tatuagem no pescoço, contou que era o nome do filho, Astill, quatro anos, e ficou cabisbaixo. "Não fiques assim", disse-lhe, deu-me vontade de o abraçar, não evitei um carinho; "é que nunca o vejo", lamentou. Doherty é louco mas tem sentimentos, pensei, e o baterista, como quem adivinha os meus pensamentos: "O Pete tem um grande coração." José Manuel Simões, Jornalista | ||
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